15 werner patologia geral aplicada a veterinária​

## Capítulo 5

#### Anomalias no Desenvolvimento

Este capítulo trata da *teratologia*, o estudo das anomalias morfológicas congênitas ou *malformações*. Apesar de o prefixo *teras* significar monstro, na teratologia não são estudadas apenas as monstruosidades, mas todas as malformações, mesmo as menos graves.

*Anomalia* é tudo que se desvia do normal. O conceito de “normal” é interessante: normal *é o indivíduo que mais se aproxima do padrão médio de sua espécie, da sua população ou mesmo de seu grupo; é o indivíduo típico ou padrão*. Assim, o que seria uma anormalidade para alguns pode ser considerado normal quando apresentado por muitos indivíduos de um mesmo grupo. É o caso de certas raças caninas, como o Pequinês e o Dachshund, que apresentam uma forma de nanismo acondroplásico que caracteriza e dá o padrão normal das raças.

### Causas das Malformações
Várias substâncias (drogas) e vírus têm sido identificados como capazes de provocar malformações; contudo, na grande maioria das vezes, as causas são desconhecidas. A alteração pode ocorrer em qualquer fase do desenvolvimento; as mais graves ocorrem, em geral, na fase embrionária da gestação.

#### Malformações Genéticas
Algumas malformações resultam de alteração do código genético e, portanto, podem ser transmitidas aos descendentes do indivíduo.

– *Malformações letais*: algumas malformações não permitem a sobrevivência do embrião, que morre e é reabsorvido pelo útero. Outras permitem a sobrevivência do indivíduo apenas no útero ou por pouco tempo após o nascimento. Por matarem o portador, essas alterações são chamadas de “letais” e, por não serem transmitidas à descendência, não têm importância econômica. Como exemplo, pode-se citar a atresia da flexura pélvica do cólon, em equídeos.

– *Malformações não letais*: são mais importantes porque a deformação pode ser transmitida à descendência e, por isso, são mais comuns que as malformações letais (por exemplo, criptorquidia, algumas hérnias, certos defeitos enzimáticos [diabetes, neutropenia cíclica em cães Collie de cor cinza, porfirinemia em bovinos, etc.]).

#### Malformações Congênitas Adquiridas
Resultam de causas externas. Por não alterarem o código genético do indivíduo, não são hereditárias. Algumas causas dessas alterações são conhecidas:

– Separação parcial dos envoltórios fetais, causando desnutrição ou má oxigenação.
– Pressão anormal sobre o feto.
– Produtos químicos ou princípios ativos de certas plantas, como *Veratrum californicum*, que produzem graves deformações em ovelhas.
– Deficiências nutricionais.
– Infecções bacterianas e virais (panleucopenia, diarreia viral bovina, etc.).
– Distúrbios circulatórios placentários (Freemartin).

### Classificação das Malformações
Existem dois grandes grupos: os *monstros* (terias/teratia), que são os indivíduos profundamente modificados (Fig. 5.1), e as *hemiterias* (hemiterias/hemiteratia), que são as deformações não muito graves (Fig. 5.2). Estas são bastante comuns e muitas delas passam despercebidas. Outras só se manifestam muito após o nascimento do indivíduo e, por isso, são chamadas de *anomalias tardias*, como a criptorquidia.

### Monstros
Monstros são os indivíduos profundamente modificados (Fig. 5.1) ou grotescos. Podem ser *únicos* (simples) ou *duplos*. Os monstros duplos são produtos de gestação gemelar e podem apresentar-se separados ou unidos.

#### Monstros Separados
Quando separados, geralmente apenas um dos gêmeos é monstro. Este costuma ser menor, seus órgãos internos são malformados ou inexistentes e, por não ter coração, sua circulação é garantida pelo gêmeo normal. Por isso é chamado de *feto parasita* ou monstro parasita. O gêmeo normal é chamado de *autosita*. Pela ausência de coração, esses monstros podem também ser denominados *acardíacos*. Para sua nomenclatura, busca-se um termo que os descreva de forma mais adequada; por exemplo, monstro *acormo* (ausência de tronco – Fig. 5.3), monstro *amorfo* ou *amorfo globoso* (Fig. 5.4).

### Figura 5.1 – Malformação congênita grave. Feto bovino.
Indivíduos anômalos, profundamente modificados e que causam assombro são classificados como monstros ou teratias.

### Figura 5.2 – Heterocromia iridis. Gato doméstico.
Algumas alterações congênitas, apesar de representarem um desvio do normal, por não serem graves, não são consideradas monstruosidades ou teratias. Essas alterações são as hemiterias ou hemiteratias.

### Figura 5.3 – Feto parasita e feto autosita. Cervo.
O feto parasita é o gêmeo malformado de um par de gêmeos idênticos, cuja circulação sanguínea é garantida pelo coração do feto normal, o autosita. Por não terem coração, são chamados de monstros acardíacos. O feto mostrado na foto é acormo, isto é, não tem o tronco. Foto: Dr. João Roberto Basile, Curitiba/PR.

### Figura 5.4 – Amorfo globoso. Feto bovino.
Às vezes, a malformação é tão grave que os indivíduos adquirem aspecto globoso, sem uma forma definida que lembre o indivíduo normal, daí o nome. Ocasionalmente, algumas estruturas anatômicas são passíveis de identificação, como indicado na foto. A grande incisão aparente foi feita na tentativa de examinar as estruturas internas.

### Monstros Unidos
A duplicação nem sempre é simétrica, podendo ser anterior ou posterior. Na sua nomenclatura, a união é indicada pelo sufixo *pago* adicionado à palavra que indica a região de união. Por exemplo, *pigópago* define a união na região da cauda, de forma que as colunas vertebrais estejam alinhadas; *isquiópago* define a união na região da pelve; *isquiotoracópago* define o que é unido desde a pelve até o tórax; *craniópago* define o unido pelo crânio; *cefalotoracópago*, o unido pela cabeça e pelo tórax (Fig. 5.5).

Para complementar a nomenclatura, pode-se indicar a parte duplicada como *dipigo* (dupla pelve); *dicéfalo* (duas cabeças); *diproscopo* (duas faces), bem como o número de elementos anatômicos presentes na parte duplicada, como *dioftalmo*, *trioftalmo* ou *tetraoftalmo* (olhos); *áloto*, *trioto* ou *tetraoto* (orelhas); *monoestoma* ou *diestoma* (boca); *tetrabráquio*, *tribráquio*, *dibráquio*, para os membros anteriores, e *tetrapus*, *tripus*, *dipus*, para os membros posteriores.

### Figura 5.5 – União por cabeça e tórax, com duplicidade posterior. Fetos suínos.
A nomenclatura dessa malformação é feita de acordo com o ponto de união e o número de membros presentes: cefalotoracópago tetrabráquio tetrápodo (ou *tetrapus*).

### Hemiterias
Hemiterias são deformações que, por não serem tão graves, não são classificadas como monstruosidades. Suas causas raramente são conhecidas. Em geral, decorrem de morte ou lesão de algumas células embrionárias ou de fatores que alterem seu desenvolvimento normal, como infecções virais do embrião e determinadas drogas, produtos tóxicos ou radiações administradas à gestante durante o primeiro terço da gestação.

### Alterações no Tamanho
Ao se examinar determinado órgão ou tecido que não atingiu seu tamanho normal, existem três possibilidades diagnósticas: agenesia, aplasia ou hipoplasia, as quais representam graus decrescentes de gravidade. Para melhor entendimento, a Figura 5.6 representa graficamente esses possíveis diagnósticos morfológicos. As outras alterações (adaptativas) que alteram o tamanho do órgão – a saber, atrofia, hipertrofia, hiperplasia e metaplasia – já foram vistas no Capítulo 4.

#### Agenesia
É a ausência completa do órgão ou da parte considerada (*a = negação + genesis = origem*). Em outras palavras, o órgão não existe (por exemplo, anencefalia, amelia, anoftalmia [Fig. 5.7]). Muitas vezes, a agenesia é apenas aparente, isto é, na realidade existe resquício do órgão, que não é percebido pelo examinador; nesses casos, o diagnóstico correto seria aplasia. Algumas vezes, casos de atresia, uma forma de aplasia (ver a seguir), também são nomeados incorretamente, como acontece nos diagnósticos de “agenesia do ânus”.

### Figura 5.6 – Esquema mostrando as alterações resultantes da falta ou incompletude do desenvolvimento de uma estrutura, tecido, órgão ou parte anatômica, comparando-se com o normal.
(A) Agenesia: a estrutura é inexistente; (B) aplasia: existe apenas um vestígio da estrutura, que não se desenvolveu; (C) hipoplasia: a estrutura não se desenvolveu completamente, sendo menor que o normal.

### Figura 5.7 – Anoftalmia. Bovino.
O diagnóstico mais apropriado é agenesia do globo ocular, pois algumas estruturas anexas do olho estão presentes. É possível, ainda, que o diagnóstico mais correto seja aplasia do globo ocular, pois o diagnóstico de anoftalmia foi feito durante o exame físico deste bezerro, e é possível que existam vestígios do globo ocular que não foram detectados.

### Aplasia
A aplasia é menos grave que a agenesia. O órgão existe, sim, mas apenas um vestígio dele. Em outras palavras, o órgão não se desenvolveu (*plasia* significa desenvolvimento). Como visto anteriormente, alguns casos de aplasia são classificados erroneamente como agenesia, como a anencefalia (Fig. 5.8), que, na realidade, é uma forma de aplasia dos hemisférios cerebrais, não de todo o encéfalo. Quando a aplasia atinge apenas parte de um órgão, geralmente tubular, recebe o nome de aplasia segmentar. Neste caso, um segmento do órgão ou não é aparente ou aparece como um cordão de aspecto fibroso e sem luz. Caso a luz exista, mas esteja reduzida, o diagnóstico correto seria hipoplasia segmentar.

*Atresia* – que, literalmente, significa ausência de abertura ou luz – é uma forma de aplasia e consiste em imperfuração ou ausência congênita de orifício natural ou de órgão tubular. A atresia do ânus pode acontecer em qualquer espécie, mas é mais comum em suínos (Fig. 5.9) e, surpreendentemente, esses animais sobrevivem por várias semanas. A atresia da vulva ou da comissura vulvar (Fig. 5.10) é ocasional em bezerras Freemartin, que é o gêmeo do sexo feminino de um par de gêmeos de sexos diferentes (ver Hermafroditismo, pág. 98). A atresia do meato prepucial (Fig. 5.11) é raríssima; o que é relativamente comum é a estenose do meato ou fimose.

#

Rolar para cima